- Comportamento

O rei mago que chegou atrasado

Artaban havia combinado de encontrar Gaspar, Melchior e Baltazar, os três magos que acabaram entrando oficialmente para a história, para juntos irem ao encontro de Jesus. Mas o quarto rei mago se atrasou e teve de seguir a viagem sozinho

Por Fabíola Brites

Uma infância inteira vendo minha mãe montar o presépio junto à árvore de Natal, mais um longo período levando meu filho para ver encenações natalinas e só há poucos dias fui descobrir que eram quatro e não três os reis magos que foram presentear o menino Jesus.

Ouvi a história em uma palestra e passei a pesquisar sobre o assunto. Queria entender que parte da minha infância ou da do meu filho eu tinha perdido que não vi o quarto rei mago passar.

Nas minhas pesquisas encontrei várias versões da lenda, até um filme, tipo aqueles da Sessão da Tarde. Todas têm em comum a trajetória de Artaban, o sábio rico e generoso que vendeu todos os seus bens e transformou-os em três pedras preciosas para entregar como presentes para o rei que estava para nascer.

Artaban havia combinado de encontrar Gaspar, Melchior e Baltazar, os três magos que acabaram entrando oficialmente para a história, para juntos irem ao encontro de Jesus. Mas o quarto rei mago se atrasou para o encontro e teve de seguir a viagem sozinho.

O atraso ocorreu porque, no meio do caminho, encontrou um homem à beira da morte. Doente e com fome, o pobre coitado foi ajudado pelo generoso sábio. Depois de certificar-se de que o necessitado já estava reabilitado, e para tentar recuperar o tempo perdido, Artaban vendeu uma das pedras preciosas para comprar camelos, mantimentos e seguir viagem.

O tempo foi passando, e ele seguia ajudando quem encontrava em suas andanças. Certa vez, enquanto pedia informações sobre o paradeiro de Jesus a uma mulher com seu filho, soldados bateram na porta. Haviam sido ordenados a matar todas as crianças do vilarejo. Vendo o pavor da mulher, entregou aos soldados a segunda pedra que trazia em troca da vida do bebê.

Como não sabia o nome do messias que procurava, nem o local exato onde estava, Artaban se perdeu pelo caminho. Não achou ninguém para adorar, mas muitos para ajudar. Leprosos, necessitados de todos os tipos.

Quando estava já velho e debilitado, soube que o rei que procurava estava para ser crucificado. Ainda trazia consigo a última pedra preciosa, o presente que esperava entregar a Jesus. Instantes antes do encontro, viu uma jovem, que estava para ser vendida como escrava em troca do pagamento de dívidas deixadas por seu pai. Artaban deu a última pedra que seria para Jesus para salvar a moça.

Em seu encontro com Cristo, totalmente sem jeito, o velho mago lamentou ter chegado 33 anos atrasado e ainda sem nenhum presente. A conversa foi algo tipo: “Jesus, desculpa! É que foram acontecendo coisas pelo caminho, nem tive tempo de te conhecer”. “Tu me conheceste sim. Em todo aquele que tu ajudaste, ali eu estava. A todos que estendeste a mão, curaste as feridas, foi a mim que fizeste.”

Fiquei pensando quantas vezes nos preocupamos em ir à missa, ao culto ou seja lá o que for, procurando encontrar Deus, Jesus Cristo ou a entidade na qual acreditamos, e nos esquecemos de ajudar quem necessita. Muitas vezes damos mais importância a rituais do que a pessoas. Focamos tanto na chegada, que nem percebemos que a beleza está no caminho, no meio das dificuldades que temos de superar.

Sobre a razão para não ter conhecido a história do quarto rei mago antes, acho que tenho uma suspeita. Às vezes demoramos a entender certas coisas porque não é o momento. Todo o conhecimento nos chega na hora que tem de chegar. Se eu tivesse lido sobre a história do quarto rei mago anos atrás, talvez não tivesse dado a ela a importância que tem. A de que a caridade com os outros é o melhor presente que podemos dar a nós mesmos.

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