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Dilema das redes: confundir popularidade com credibilidade

Filme mostra riscos viciantes que gigantes da tecnologia expõem usuários e acende alerta sobre a necessidade de passarmos a demandar redes sociais que estejam a nosso serviço

Por Fabíola Brites

As estratégias utilizadas pelos gigantes da tecnologia para prender, cada vez mais, nossa atenção no meio digital são tema de “O Dilema das Redes”, lançado pelo Netflix no início deste mês.

Misturando documentário, com conteúdo jornalístico, entrevistas e imagens de arquivo, a recursos de dramatização para encenar a realidade, a produção norte-americana, dirigida por Jeff Orlowski, mostra como empresas como Google, Facebook e Twitter fazem para que passemos da condição de clientes, com direitos e deveres, para a condição de usuários, termo utilizado também pela indústria de drogas ilícitas.

Mas o fato é que o tema não se trata de um roteiro de mocinhos e bandidos. Seria até melhor se fosse simples assim. Como o filme procura demonstrar, a questão é complexa e depende muito mais de nós do que de qualquer ação de governos ou das empresas envolvidas.

No Brasil, o docudrama virou motivo de conversas, debates, palestras e, nesta semana, é capa da revista “Veja”, que traz entrevista exclusiva com Tristan Harris, que aparece no filme. O especialista em tecnologia, que trabalhava no Google como consultor ético para a criação de ferramentas da plataforma, deixou a empresa para virar ativista digital, alertando para os riscos viciantes que estas organizações expõem quem as utiliza.

A lógica do almoço grátis

A intenção, aqui, não é dar spoiler para quem ainda não viu o filme, nem repetir o que já vem sendo dito. A ideia é destacar o que muitos, inclusive, já sabiam ou, pelo menos, desconfiavam: não existe almoço grátis. Logo, se você está utilizando um produto sem pagar nada por ele, você é o produto. Este é o ponto central do filme, e a complexidade da questão nos leva a refletir aspecto sobre o qual não costumamos dar a devida importância: o risco de confundir popularidade com credibilidade no uso das redes sociais.

A crítica classifica o filme como tendencioso e alarmista e há quem justifique que a própria escolha dos entrevistados, a maioria homens, brancos e jovens, impossibilita um olhar mais amplo sobre a questão. Deixando um pouco os argumentos a favor e contra a produção de lado, concentremo-nos, então, nos critérios que utilizamos para selecionar um texto para ler e interagir nas redes.

Quanto mais engajamento ele demonstra, seja por meio de curtidas ou comentários, mais chama a nossa atenção, nem que seja para criticá-lo. O que não significa dizer que, se uma postagem é popular, ela não tem credibilidade, tampouco vice-versa. Os dois conceitos são complementares, não excludentes. O mesmo critério utilizamos quando fazemos nossas próprias postagens, afinal, somos todos produtores e consumidores de conteúdo no universo das redes sociais.

A busca pela aprovação alheia

Ao postarmos algo, queremos o que todos querem: sermos lidos, assistidos, curtidos. E é a busca por esta validação, seja como produtores ou consumidores de conteúdo, por meio de nossas postagens, que aumenta a nossa responsabilidade no papel que Google, Facebook, Twitter, Instagram, LinkedIn ou seja lá que rede social utilizamos, exercem nas nossas vidas.

Que eles vendem nossa atenção por meio de anúncios para empresas que querem comprar nosso interesse, isso não há a menor dúvida e, no meu entender, nada de novo nem errado. Os gigantes da tecnologia são negócios e, como tais, buscam o lucro.

Cabe, sim, a cada um de nós, definir em que medida seremos “comercializados” e “compraremos” conteúdo apenas porque os outros estão “comprando”, ou seja, comentando. Quando passamos a nos perguntar porque gastamos horas rolando o feed ou compartilhando algo nas redes sem exercer nosso pensamento crítico começamos a prestar atenção em nós mesmos e naquilo que consumimos e produzimos. É quando, então, deixamos de confundir popularidade com credibilidade e passamos a demandar redes sociais que estejam a nosso serviço, não o contrário.

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