- Casa e Decoração

Arte consciente com sabor de infância

Criador das famosas Gordinhas, que fizeram sucesso no Brasil e no exterior na década de 1980, Cho Dorneles é um artista que faz questão de manter dentro de si a criança que já foi. A curiosidade, cultivada desde a infância, o fez descobrir a mobgrafia e aplicativo de celular para produzir arte para máscaras e echarpes. É a sua forma de contribuir para um mundo mais consciente nestes tempos de pandemia.

Um artista por força das circunstâncias, com sua arte forjada nas brincadeiras de infância com barro à beira do Rio Jacuí, onde cresceu, entre a sua casa e a da tia, em que passava férias.

Assim define-se Cho Dorneles, que quase não se reconhece pelo próprio nome, Antonio Carlos Dorneles da Silva. Cho vem da música infantil que o casal de irmãos, também seus padrinhos, cantava para o caçula e rapa de tacho da família de seis filhos.

A tia, de formas excessivamente generosas, sorriso e beleza igualmente fartos, o inspirou, como um contraponto ao culto às academias de ginástica e à ode à magreza, que surgiam naquela na década de 1980.

Esculturas da série Gordinhas, criada nos anos 1980, pelo artista plástico Cho Dorneles. Foto: Reprodução

A partir das lembranças da criança que nunca deixou arrefecer dentro de si e da vontade de mostrar que, mesmo fora dos padrões, as gordinhas podem ser charmosas e contentes consigo mesmas, criou a série de esculturas que o levariam a morar na Itália, ser paparicado por embaixadores, cotejado pela imprensa, reconhecido por seus admiradores.

 Talento de parar o trânsito

“Aquilo foi um auê!”, lembra Cho. As Gordinhas, peças inicialmente criadas em papel machê, literalmente paravam o trânsito em frente à vitrine da galeria em que foram expostas em São Paulo.

As primeiras 25 foram vendidas no mesmo dia da abertura da mostra. Depois vieram os pedidos para novas exposições no Brasil, encomendas para a Itália, até que o levaram ao país de Bernini, um dos pioneiros da arte barroca que tem, na Piazza Navona, algumas de suas mais conhecidas obras.

Cho voltou ao Brasil após passar temporada na Itália, produzindo e expondo sua arte. Foto: Reprodução

A praça, um dos destinos que Cho queria conhecer, viu de cima, do terraço do prédio onde ficava a embaixada brasileira, em um dos muitos eventos que sua arte o levou.

Antes de chegar até a temporada de quase dois anos na Itália, vivendo como artista visual reconhecido, fez teatro, apresentou jogral com amigos no bar de um dos irmãos em Porto Alegre, e pintou camisetas para vender na Rua Augusta, em São Paulo, mas sempre vivendo da arte.

“Se tu me perguntares como consegui, não vou saber explicar”, diz Cho, sobre o privilégio de, a vida inteira, tirar o sustento do ofício que começou a cultivar por pura curiosidade, sujando-se com a argila tabatinga, enquanto armazenava histórias e lembranças que teceriam sua personalidade.

Requisitado professor de papel machê há décadas, tem nos amigos Maria Lídia Magliani e Otávio Pereira suas maiores influências. Magliani, como a artista assinava suas obras, é, segundo Cho, “uma das maiores pintoras que o Brasil já teve”, e Pereira foi um grande litógrafo, que imprimia com famosos artistas novaiorquinos da época.

A mesma curiosidade infantil, que o fez despertar, desde cedo, para novas formas de expressar seu talento, Cho Dorneles cultivou a vida inteira.

 Curiosidade de menino

“Eu sempre fui muito curioso. A curiosidade é uma das coisas que leva uma carreira adiante, isso vale para qualquer profissão.”

Mais recentemente, ela levou o artista a descobrir a mobgrafia, que explora por meio de um aplicativo gratuito que ouviu falar e foi procurar saber mais.

Mobgafria com autorretrato do artista é resultado da curiosidade cultivada por Cho desde menino. Foto: Reprodução

Tal como aquele menino que brincava no barro, dando forma a objetos de referência indígena ou mesmo pré-históricos, Cho passou a entreter-se com o novo brinquedo.

Da exploração da ferramenta surgida da tecnologia, começou a criar máscaras e echarpes impressas pela técnica de sublimação com arte feita a partir de antigos autorretratos sobrepostos a imagens de suas obras.

O teletrabalho, que descobriu nestes tempos de pandemia, é só mais uma das formas de expressar e compartilhar seu talento. As aulas, para turmas no ateliê em sua casa, também passaram a ser ministradas por meio de aplicativo de mensagens, no período mais agudo imposto pelo distanciamento social forçado que o mundo vive.

Echarpe com arte feita a partir de uso de aplicativo de celular e impressa pela técnica de sublimação é um dos novos trabalhos de Cho Dorneles. Foto: Divulgação

 Um artista confortável consigo mesmo

A poucos meses de completar 72 anos, em outubro, coincidentemente, mês das crianças, Cho diz que continua vivendo como aquela criança, pegando barro da beira do rio, tomando banho e aproveitando para ficar ali.

Sente-se confortável consigo mesmo e diz que o problema de habituar-se a morar sozinho é “a gente se apaixonar por esta solidão”.

Conforme o artista, o papel da arte, neste momento pelo qual o mundo passa, “é trazer  consciência, é permitir aos outros que sonhem junto com a gente, buscar as suas próprias belezas interiores e coisas agradáveis”.

Como exemplo, cita a quantidade de lives de músicos e divulgação de outros trabalhos que estão sendo oferecidos pela internet durante a pandemia. “Acho que está tornando mais palatável tudo isso.” O que nos sugere que a arte, segundo Cho, tem sabor de infância.

Por Fabíola Brites

A arte de Cho em roupas e acessórios

Matérias Semelhantes

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *