- Comportamento

A influenciadora digital que não tem rádio

Como e onde se informam aqueles que hoje ajudam a criar nossa concepção de mundo? Como se atualizam? De onde tiram o que profetizam? A reflexão pode nos ajudar a escolher melhor as ideias que compramos

Por Fabíola Brites

Outro dia participei de um encontro que reuniu jornalistas e influenciadores digitais. O segundo grupo era formado por gente conectada até o último fio de cabelo. O primeiro também não ficava para trás, mas era bem mais comedido.

Durante nosso deslocamento até a fábrica onde iríamos conhecer novidades e métodos de produção de artigos que tornam mais fácil nosso cotidiano doméstico, blogueiras trocavam figurinhas na van. Os assuntos na conversa eram os gadgets do momento e suas listas nos serviços por streaming. Falavam alto e em bom som sobre suas façanhas ao colocarem em playlists músicas que recém haviam sido lançadas.

Em poucos quilômetros, fiz uma imersão no mundo tecnológico. Obrigada, gurias! Acho que nunca aprendi tanto sobre modelos de celular em tão pouco tempo. Até que uma delas disse que não tinha rádio. A informação passou meio sem querer enquanto falava sobre sua smart tv e problemas de conectividade que enfrentou. Foi algo do tipo: “Fiquei sem internet em casa e lembrei que preciso comprar um rádio, que não tenho”. A constatação dela me alertou para dois fatos: a dependência que temos do wi-fi e a necessidade urgente de refletir sobre a fonte de onde estamos bebendo nosso conhecimento.

De onde estamos tirando nosso conhecimento?

É claro que dá para ouvir rádio no computador, no celular, mas nunca será só o rádio. Sempre vamos precisar de algo mais. Na internet, as “ondas” do rádio dependem do wireless. E quando ficamos sem o tal “sem fio”, com perdão do trocadilho, ficamos também sem rádio. O outro alerta que disparou durante o papo conectado foi sobre a origem da matéria-prima para nossa informação diária. Até pouco tempo atrás, o jornalista saía da faculdade preparado para trabalhar em um veículo.

Hoje o sujeito sai de lá, ele é o veículo. Muitos nem precisam passar pela faculdade, ainda mais de jornalismo, para terem e serem seus próprios veículos de comunicação que vão influenciar centenas, milhares de pessoas. Gente que nasceu com a internet ou depois dela já tem legião de seguidores em suas redes sociais ainda antes de ter autorização para votar. Acho isso fantástico! Sério! O poder de comunicação desta geração é algo que precisa ser melhor estudado.

Gente que nasceu com a internet ou depois dela já tem legião de seguidores em suas redes sociais ainda antes de ter autorização para votar (Foto: Pixabay)

Se antes dos avanços tecnológicos formávamos nossas convicções com base nas opiniões da família e da igreja, com o surgimento da imprensa, passamos a buscar nos meios de comunicação o essencial para embasar nossas crenças e atitudes: a informação.

Agora, estamos vivendo outro momento: a era dos influenciadores digitais. Quem ainda assina um jornal impresso? Ou passa mais tempo ouvindo notícia no rádio do que conferindo as postagens no Facebook? Quantas vezes você já ficou sabendo de um fato importante primeiro pelas redes sociais?

A influenciadora digital não ter um rádio em casa não significa grande coisa. Ela pode sim se informar em outras fontes. Pode, e acredito que seja, inclusive, muito bem informada, principalmente na sua área de atuação, uma vez que a agência que organizou o encontro é criteriosa nas suas relações com a mídia, incluindo aí as sociais.

A reflexão que proponho é sobre como e onde se informam aqueles que hoje ajudam a formar nossa concepção de mundo. De que fonte bebem? Como se atualizam? De onde tiram o que profetizam? Melhor do que ter todas as respostas é saber fazer as perguntas certas. Aquelas que podem nos levar a uma capacidade de reflexão e escolha sobre nossas aquisições, principalmente as de conteúdo.

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